Arte: Dan-ah Kim

Arte: Dan-ah Kim

Foi tomando banho que pensei nisso. Daquelas coisas que o que se faz não tem importância relevante no momento, mas sim algo que veio forte à mente e você acaba por se fixar e investigar, dissecar o clarão. E a imagem do local ou do que se fez fica atrelada ao devaneio, o reforça, por assim dizer.

Estava em pé, num movimento que recém havia levantado o tronco e podia ver-me em partes no espelho. Um misto de cinza das paredes e vermelho da moldura, com o escuro do mármore da pia e o gelado desta peça e do chão.

Eu pensara justamente sobre o quanto ela me acompanhara por toda a vida. O quanto estava embutida na pessoa que eu era e, sendo assim, como viver uma existência em que sua ausência não me trouxesse em suas lembranças, fantasmas.

E justo agora, acostumada um tanto com a vida assim, diferente, e longe dela, com esperanças de um porvir ainda mais independente, ela ressurgira, mais calma e lenta nas primeiras vezes, forte e brutalmente de lá pra cá.

Maldita, tantas vezes maldita insônia. Perseguiste-me toda a vida, a vida inteirinha. Que vens dizer? Que tens a contar? Han? Anda logo com isso, acaba com a minha possibilidade de ser minimamente normal, vai.

Pensara justamente que, ela não apenas voltara a me fazer companhia, mas que fazia mais parte da minha história de vida do que quase qualquer outra coisa. Sim, ela sempre estivera ali, na faculdade, na adolescência, na infância. Nos últimos tempos, não. Mas ela estava ali de novo e era velha conhecida, como dizer a ela simplesmente ‘vá embora’? Aquele lugar era mais dela que a própria ausência dela poderia ser daquele lugar. Ela era mais forte que ausência, presença insolente que me subjugava e, diante da qual, eu era mais que impotente. Não havia como lutar e ela, ela me dominava.

Não era como uma noite de insônia, entende? Consegue mesmo entender? Era como uma vida de insônia, de dormires vagos e irregulares. Ao abrir os olhos, no escuro hostil, ela estava ali, insólita. O que vinha me dizer, não nesta noite, mas… qual era a mensagem tão importante? Pois se assim não o fosse, não a conheceria tanto.

Na moldura vermelha perguntava-me se seria possível desvencilhar-me, ser apenas livre dizendo: vou dormir!

Daquelas coisas que te trazem fio na espinha e te fazem se sentir escravo. Você provavelmente sabe porque já se apaixonou e não conseguiu sair dali, mesmo quando doía e dizia ‘não quero mais’. Demorou até o não querer surtir o efeito de causa.

Como amar a sua insônia?

Sozinha, era eu e ela.

Debaixo do chuveiro, água quente em cima de mim, pensava algo também não compreendido antes. Talvez deveria acolhê-la, procurar o que fazer todas as noites, enquanto o mundo dorme. Levá-la pra passear, como um doce namorado…

Ok. Eu e você, aqui de novo. Vou ficar em silêncio, o que você quiser dizer, pode dizer… tá?

Sem ultraje, sem egoísmo, sem querer dominar. E ela me disse, lentamente e muito, muito suave e baixo que, ‘lá’, era necessário deixá-lo livre. Se eu quisesse ‘descansar’ essa era a condição. Pra onde ele me levasse eu simplesmente o seguia, sem gritar, sem temer, entende? Entende onde eu quero chegar?

Ele era eu, do ponto de vista mais profundo e sincero. Eu disse ‘profundo’. Pro-fun-do… O máximo que ‘ele’ desejasse ir. Eu, mais que o seguir, estava ali, estava ali dentro. Inconsciência vil e bela pelo caráter de liberdade.

Era isso, se soltar na escuridão sem fim, poder voar como sobre estrelas, sem controle algum, sem direção, sem julgamento.

No fim, a escuridão talvez fosse isso, um monte de estrelas, imensidão, mais que profundidade negra, e eu não precisaria mais ter medo. Pode ser que o que eu mais temesse, afinal, me trouxesse o tesouro há tempos perdido. E se assim o fosse ela sempre fora minha amiga, alertando-me que não havia perigo, mas necessidade de entrega. E sim, era essa a mensagem, tudo o que eu mais queria, dependia de nada querer, nada projetar, nada controlar. A entrega pura e simples, como amar e ceder.

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ACALANTO

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