meu corpo mudo

translitera um

pensar miúdo

com sentidos consumados

 

nossa transcrição

silenciosa

faz-se abrigo

vozes tato odores

 

um mergulho no

vazio do peito

preenche doce

meu descabimento vago

 

torno-me deusa

daquilo que já

sou languidez de

terra molhada

enraizada com teu sol

 

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Sim, não sabia brincar, eu disse

Quem sabe as amoras realmente doces fossem as menos púrpuras

O mundo seria menos coerente e suas regras não me afetariam tanto

 

Mas eu gosto tanto da cor quanto do sabor e eu sei que é isso que pesa

Gostar sem saber se isso veio antes ou depois de você

O que se gosta

 

Vocês já ouviram falar das flores mortas

Que pesam uma tonelada

Só porque não tem mais vida?

 

É assim, dizem

Sutil e breve

A falta de um fundo

 

Porque quando não causa torpor

É dor

Pedaços que se misturam

sem se tocar

 

A flauta do flautista disse em tom baixinho

Que o melhor vinho

Não se pode provar

 

Leva-se logo pra casa

e simplesmente delicia-se.

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O romance é coisa estranha

Não o amor, não, o amor não é estranho

Estranha é a nossa maneira de pensar em como vivê-lo

A gente idealiza

Planeja

Recorta,

linda forma

Mas não, não cabe

Em lugar nenhum

aquele corte

O amor existe entre duas pessoas

Apenas

Quase que sozinho

e sem a posse da pessoa por quem este sentimento existe

Já a relação

é resultado de como

as pessoas

na relação

encaram esse amor

E infelizmente às vezes elas não o sentem

Elas imaginam

E o que elas imaginam

Não existe.

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um; outro… casamento, morte; chegada, despedida… pai, mãe, irmão, futebol. o filho dele, a janela… tinha quintal, a casa dos meus pais era velhinha, mas a cortina era branca e tinha alegria lá fora, lá dentro e aqui dentro… era meu casamento.

eu nunca antes imaginara sentir tamanha alegria. eu sempre detestei festas de casamento e graças a Deus aquela não era uma festa de casamento. era apenas um encontro familiar e uma constatação que eu jamais imaginara ter de que eu o amara e era feliz e compreensiva com as paredes velhas que meus pais não arrumavam, pois eu tinha um amor imenso que preenchia o meu coração, uma alegria que quase me fazia levitar e a janela, a cortina branca, o quintal, as crianças, o futebol e esse amor contentavam meu ser.

era final do mês, 30 de agosto, já. o emprego foi-se, o caderninho dos sonhos se foi e este era um novo, já. ele é rosa porque este é o mês da primavera, setembro.

eu também havia mudado. que bom. eu tinha, como num gole só de uma cachaça que te faz querer vomitar e que te fortalece, descoberto e superado os meus medos. O meu medo. O meu medo maior e todos os outros. eu tinha descoberto O medo. O mesmo que bate à porta de todos e que veste as roupas perfeitas para vir de encontro a mim. O meu era especial, lógico. O de todo mundo é. o nosso umbigo é muito grande e é preciso ser muito sensível pra sentir os medos do outro, estremecer a espinha e sentir os pêlos em pé, além de compreendê-los.

a única coisa que vale a pena nesta vida é escolher o caminho. e os meus caminhos sempre foram tortos, com pedaços malcheirosos, com rostos e máscaras apontando em diversas direções. às vezes estes rostos choravam, eles não tinham corpos. às vezes as máscaras davam gargalhadas, com certeza se riam de mim. a verdade é uma só e não estaria em outro lugar que não no coração da gente, mas a gente é metido à besta, fica a explanar sobre a vida e sobre as coisas e não sabe sentir um grito dentro da própria alma. tem vários disfarces pra coisa. vezes amanhece carne e traz da noite um quê a mais de espírito, nestas horas até que se compreende bem o quão fundo a coisa é, o quão negro é o buraco e quão profundo é o canal que leva à morte e que é o mesmo que traz à vida. aliás, a vida aqui dentro é tal qual a de fora. mas eu ainda estou perdida do lado de fora e a pensar que ninguém me abre a porta, que já é uma gozação essa história do interfone… mal sei eu que a única pessoa que abre pra mim, do lado de dentro, é a mesma que vos fala e que está cá fora.

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Arte: Dan-ah Kim

Arte: Dan-ah Kim

Foi tomando banho que pensei nisso. Daquelas coisas que o que se faz não tem importância relevante no momento, mas sim algo que veio forte à mente e você acaba por se fixar e investigar, dissecar o clarão. E a imagem do local ou do que se fez fica atrelada ao devaneio, o reforça, por assim dizer.

Estava em pé, num movimento que recém havia levantado o tronco e podia ver-me em partes no espelho. Um misto de cinza das paredes e vermelho da moldura, com o escuro do mármore da pia e o gelado desta peça e do chão.

Eu pensara justamente sobre o quanto ela me acompanhara por toda a vida. O quanto estava embutida na pessoa que eu era e, sendo assim, como viver uma existência em que sua ausência não me trouxesse em suas lembranças, fantasmas.

E justo agora, acostumada um tanto com a vida assim, diferente, e longe dela, com esperanças de um porvir ainda mais independente, ela ressurgira, mais calma e lenta nas primeiras vezes, forte e brutalmente de lá pra cá.

Maldita, tantas vezes maldita insônia. Perseguiste-me toda a vida, a vida inteirinha. Que vens dizer? Que tens a contar? Han? Anda logo com isso, acaba com a minha possibilidade de ser minimamente normal, vai.

Pensara justamente que, ela não apenas voltara a me fazer companhia, mas que fazia mais parte da minha história de vida do que quase qualquer outra coisa. Sim, ela sempre estivera ali, na faculdade, na adolescência, na infância. Nos últimos tempos, não. Mas ela estava ali de novo e era velha conhecida, como dizer a ela simplesmente ‘vá embora’? Aquele lugar era mais dela que a própria ausência dela poderia ser daquele lugar. Ela era mais forte que ausência, presença insolente que me subjugava e, diante da qual, eu era mais que impotente. Não havia como lutar e ela, ela me dominava.

Não era como uma noite de insônia, entende? Consegue mesmo entender? Era como uma vida de insônia, de dormires vagos e irregulares. Ao abrir os olhos, no escuro hostil, ela estava ali, insólita. O que vinha me dizer, não nesta noite, mas… qual era a mensagem tão importante? Pois se assim não o fosse, não a conheceria tanto.

Na moldura vermelha perguntava-me se seria possível desvencilhar-me, ser apenas livre dizendo: vou dormir!

Daquelas coisas que te trazem fio na espinha e te fazem se sentir escravo. Você provavelmente sabe porque já se apaixonou e não conseguiu sair dali, mesmo quando doía e dizia ‘não quero mais’. Demorou até o não querer surtir o efeito de causa.

Como amar a sua insônia?

Sozinha, era eu e ela.

Debaixo do chuveiro, água quente em cima de mim, pensava algo também não compreendido antes. Talvez deveria acolhê-la, procurar o que fazer todas as noites, enquanto o mundo dorme. Levá-la pra passear, como um doce namorado…

Ok. Eu e você, aqui de novo. Vou ficar em silêncio, o que você quiser dizer, pode dizer… tá?

Sem ultraje, sem egoísmo, sem querer dominar. E ela me disse, lentamente e muito, muito suave e baixo que, ‘lá’, era necessário deixá-lo livre. Se eu quisesse ‘descansar’ essa era a condição. Pra onde ele me levasse eu simplesmente o seguia, sem gritar, sem temer, entende? Entende onde eu quero chegar?

Ele era eu, do ponto de vista mais profundo e sincero. Eu disse ‘profundo’. Pro-fun-do… O máximo que ‘ele’ desejasse ir. Eu, mais que o seguir, estava ali, estava ali dentro. Inconsciência vil e bela pelo caráter de liberdade.

Era isso, se soltar na escuridão sem fim, poder voar como sobre estrelas, sem controle algum, sem direção, sem julgamento.

No fim, a escuridão talvez fosse isso, um monte de estrelas, imensidão, mais que profundidade negra, e eu não precisaria mais ter medo. Pode ser que o que eu mais temesse, afinal, me trouxesse o tesouro há tempos perdido. E se assim o fosse ela sempre fora minha amiga, alertando-me que não havia perigo, mas necessidade de entrega. E sim, era essa a mensagem, tudo o que eu mais queria, dependia de nada querer, nada projetar, nada controlar. A entrega pura e simples, como amar e ceder.

ACALANTO

Citação

“Carta à amiga P.,

Eu te conheço ao menos até onde as suas expressões e a sua voz projetada ou rouca permitem-me entender-te. Neste seu momento eu diria que deves enfrentar teus medos. Dar adeus ao passado, aos traumas, às dores. Aceitar. Aceitar as mudanças pra aceitar a grande transformação (que se passa dentro de si). O mundo te aguarda, querida P. A sua vida te aguarda. As pessoas que te amam e que te amarão te esperam. Elas precisam de você e… você precisa de você. A vida passa rápido. Você sabe… E tudo tem seu tempo. Mas é necessário agir. É preciso criar caminho de acesso aos sentimentos, ao Eu (seu espírito) para ser quem se é. Para realizar tudo que se veio realizar. Para viver o melhor que a vida tem pra oferecer. E pra sentir isso na pele, no coração e no olhar do outro.

Com amor, A.”

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Porque eu não vou mais me perder naquilo que não me toca

Naquilo que não faz meu coração sentir calor

Porque a vida pode ser muitas

Mas só existe no agora

Porque o ego não cumpre

A jornada da alma

Se não transformar-se em carne

Que não reluta com o peito

E com aquela faísca sutil e efêmera que vem nos dizer algo

Antes ele a abriga

A sustenta

E cria algo que só ele seria capaz de criar

Jamais sozinho.

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